Permiti que passasse mais de um ano sem ter vontade ou inspiração de vir aqui.
Em tempos idos, era a escrever que limpava a alma, que deambulava pelo teclado e magicamente transformava páginas brancas em aglomerados de palavras com significado, pelo menos para mim!
Neste último ano muita coisa se alterou mas, se formos analisar tudo minuciosamente, a vida mantém-se mais ou menos na mesma. As criaturas pequenas mudaram de ciclo e, como já vem sido habitual, estava eu muito mais receosa que elas. Adaptaram-se melhor do que alguma vez imaginei. Sinto que sempre pertenceram ali e a escola primária foi só uma fase por onde elas tinham obrigatoriamente que passar, um tempo que as preparou para este maravilhoso mundo novo! É toda uma animação e excitação que pensei que o passar do tempo atenuasse, mas não. O encantamento está presente todos os dias, a descoberta, o ir à aventura pelos corredores gigantes de uma escola para a qual sempre julguei não estarem preparadas. Para passear e brincar, estão sempre preparadas. Para levar algumas coisas com mais seriedade, penso que não estão. Tenho, aliás, a certeza que não estão! Mas com tudo o que se tem passado à volta delas, sinceramente, neste momento o que me apazigua a ansiedade, é senti-las felizes e encantadas a cada dia que passa. Obviamente que o discurso repreendedor e realista tem de estar (quase) constantemente presente, não fosse eu a mãe chata desde os tempos em que as miúdas vieram a este mundo para me testar a paciência... a paciência, o coração a agigantar-se e a tornar-se pequenino em simultâneo de cada vez que meto os pézinhos fora da cama! É todo um processo de crescimento, para mim, para elas e para o pai, que continua a dar-me abanões para me trazer de volta à razão, que perco cada vez mais facilmente!
Da minha vida quero muito mais. Da minha, da Ana, não da delas! O trabalho já não me traz alegria, sinto-me cada vez mais desmotivada, mais cansada todas as manhãs, mais sem vontade que o dia amanheça, de todas as noites em que deito a cabeça na almofada e os meus olhos se fecham! Quero levar ao mundo aquilo que faço melhor - (ser mãe não conta!) - dar um bocadinho do meu jeitinho (que herdei não sei de quem!) de escrever e "corrigir" (como faço constantemente!) que precisa de ajuda! Quero e preciso de mais dinheiro no banco no fim de cada mês (não me estou a queixar! Agradeço todos os dias o pouco, que é tanto, que tenho!), mas preciso de mais para poder olhar montras, entrar e comprar sem culpa! Para não apanhar sustos com necessidades imediatas de que não estava à espera! Quero que possamos continuar a dar-lhes o que nunca nos puderam dar e dar-lhes ainda mais, muito mais! E dar-nos mais, aos dois, para nos podermos escapar de quando em vez, para regressar depois com energias renovados e um amor mais forte!
É isto, hoje é isto! Hoje é um daqueles dias da semana (todas as semanas!) em que me sinto absolutamente inútil e subaproveitada! Quero e preciso de mais! Preciso sentir-me útil!
"Não quero mais que um som de água
Ao pé de um adormecer.
[...]
Pobre alma, choras sem pranto,
E ouves como quem vê."
Pessoa




